CHICO BUARQUE E AS CIDADES

Chico Buarque (2000)

2000
BMG
Crítica

Cotação:

Quem diria, o mais recatado dos ases da MPB virou cena de cinema nas lentes da Conspiração Filmes. Para capturar o repertório recente de Chico Buarque, o do disco que dá título ao DVD, o cineasta José Henrique Fonseca gravou em setembro de 1999, no teatro Carlos Gomes, no Rio, um show que serviu de piloto para os vôos do roteiro. Eles incluem desde uma viagem a Buenos Aires até um desembarque na Mangueira ao lado de Jamelão e um bate bola no Politheama com o craque/comentarista Tostão. Numa primeira - e hilária - tomada, logo após a abertura com a música Paratodos no palco do Carlos Gomes, Chico caminha, de roupa e tudo, nas areias da praia carioca do Leblon. Anda rápido como se quisesse fugir da câmera e da pergunta sobre o título "As cidades" utilizado no projeto. Começa falando sério. "Minha música é urbana", detecta. E emenda com raizes no samba de morro, na Vila Isabel, mas súbito desata numa gargalhada que derrete a argumentação. A cena é cortada e o cantor já está de novo no palco com sua banda liderada por Luiz Claudio Ramos (violão, arranjos) mandando dois temas conexos em Homenagem ao Malandro e A Volta do Malandro.

Mas o entrevistador persiste e Chico acaba revelando em nova investida ao ar livre sua fórmula de andar na rua sem ser importunado. "Saio com a cara compenetrada de quem está com o escritório na cabeça", define. E dispara conceitos sobre cidades que lhe são muito familiares como Roma ("o caos") e Paris ("tem todos aqueles monumentos, mas você se sente protegido") depois de decantar seu amor pelo Rio natal. "Ando pelo mato, mas com aquele zumzum da cidade ali perto", mapeia. A filmagem alterna a nonchalance do performer ("não gosto de aeroporto, nem de entrevista, nem de avião, o melhor momento é quando acaba o show") com o estilo cool que ele adquiriu com a experiência no palco. Mesmo que seja o suntuoso teatro Gran Rex, de Buenos Aires, onde a produção teve a feliz idéia de colocar espectadores argentinos cantando trechos de músicas do compositor. Ele diferencia as platéias estrangeiras das nacionais. "Fica aquele silêncio e você percebe como as músicas de fato são", separa.

Um Cotidiano em levada mais pop, a meditada A Ostra e o Vento e Chico aparece em outro cartão postal carioca ao lado de Maria Bethânia duetando em Olhos nos Olhos, ambos acompanhados apenas pelo violão de Jaime Além. Há um diálogo a respeito de como Bethânia recebeu a canção, enviada por Chico ("pensei que você não tinha gostado", queixa-se ele) que deu a ela com o enorme sucesso, "minha primeira oportunidade de tocar nas rádios AM". Um papo da dupla sobre discos voadores serve de mote para focalizar o Museu de Arte Contemporânea de Niterói que tem esse formato e leva a assinatura de Oscar Niemeyer, a quem Chico confessa tê-lo inspirado na idéia de estudar arquitetura. Sua ambição era morar numa casa planejada por Niemeyer, mas largou a arquitetura e virou "aprendiz de Tom Jobim", confessa num texto lido. "A música do Tom na minha cabeça era a casa do Oscar", sentencia. E já andando em outro cenário evoca a parceria com Vinicius de Moraes ("ele e Tom procuravam a garotada porque nós eramos mais familiarizados com a obra que o pessoal da idade deles") e sobe o morro da verde e rosa, onde canta numa roda ao lado de Jamelão a parceria com Jobim Piano na Mangueira.

O dinamismo do DVD, que no repertório conjuga a noviça Iracema Voou com a retrô Quem Te Viu, Quem Te Vê, permite a Chico leituras de trechos de seus livros Estorvo e Benjamim, exibições de futebol no campo de seu invicto Politheama (e prosas de jogador frustrado com Tostão e o jornalista Fernando Calazans) e até uma ida à Camara Municipal do Rio, onde o baterista de sua banda, Wilson das Neves é condecorado e recebe um discurso de homenagem do patrão. De volta à Mangueira, escola que consagrou o compositor transformando-o em enredo acontecem as cenas mais comoventes - além de dois pequenos erros - do DVD/documentário. O lendário Zé Ramos, quase aos noventa, numa roda com Chico e Jamelão, canta sua Capital do Samba. Mais adiante o mesmo Chico singra Sala de Recepção, de Cartola e uma feijoada é preparada pela ala das baianas enquanto rola o samba/ receita Feijoada Completa. Assim como faltou identificar Zé Ramos também não há letreiro informando quem é a integrante da ala das baianas que canta, incrivelmente afinada enquanto dá um trato nas panelas, o samba enredo mangueirense em homenagem ao compositor. O DVD tem ainda um substancioso making of apresentado pelo canal Multishow com entrevistas do cineasta, fotógrafo, iluminador, etc, além de um número bônus, mais o roteiro e a ordem das musicas. Afivelem os cintos e boa imersão no planeta Chico Buarque.(Tárik de Souza)
Faixas
1 Paratodos
(Chico Buarque)
2 Homenagem ao malandro
(Chico Buarque)
3 A volta do malandro
(Chico Buarque)
4 Cotidiano
(Chico Buarque)
5 A ostra e o vento
(Chico Buarque)
6 Olhos nos olhos
(Chico Buarque)
7 Olhos nos olhos (Com Maria Bethânia)
(Chico Buarque)
8 Piano na Mangueira (Com Jamelão)
(Chico Buarque, Tom Jobim)
9 Quem te viu, quem te vê
(Chico Buarque)
10 Iracema voou
(Chico Buarque)
11 Assentamento
(Chico Buarque)
12 Construção
(Chico Buarque)
13 Bancarrota blues
(Chico Buarque, Edu Lobo)
14 Feijoada completa (Com Zeca Pagodinho e Almir Guineto)
(Chico Buarque)
15 Sala de recepção
(Cartola)
16 Capital do samba (Com Velha Guarda da Mangueira)
(José Ramos)
17 Capital do samba
(José Ramos)
Chão de esmeraldas (Chico Buarque - Hermínio Bello de Carvalho)

18 Chico Buarque da Mangueira
(Nelson Csipai, Carlinhos das Camisas, Nelson Vilas Boas)
 
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