COLEÇÃO

Cassiano (2000)

2000
Crítica

Cotação:

Cassiano é beleza cristalina e imediata, não é preciso fazer força para se gostar. Foi onde o Brasil mais próximo chegou de Marvin Gaye, Stevie Wonder, Isaac Hayes e Curtis Mayfield – da soul music de linhagem nobre, com sofisticação jazzística, alma de blues e a melhor pegada pop. Para competir com esses gigantes nas ondas da AM nos anos 70, só mesmo o nosso Cassiano, que com seu toque de brasilidade (herança dos tempos do grupo vocal Diagonais, em que fazia Motown a partir de Ary Barroso, Herivelto Martins e Altamiro Carrilho), estabeleceu o paradigma para as gerações posteriores – de Carlos Dafé e Cláudio Zoli a Ed Motta e a turma toda da Trama. Coube a Ed, por sinal, a tarefa de organizar este Coleção, a primeira e mais bem cuidada coletânea que se poderia ter desse mestre que nunca se conformou com a mentalidade mercantilista das grandes gravadoras. Numa embalagem digna e sedutora, com bela capa, letras, fichas técnicas e texto crítico-informativo (tem até uma apresentação em inglês), o músico reuniu faixas remasterizadas dos três discos fundamentais de Cassiano: Imagem e Som (1971, RCA), Apresentamos Nosso Cassiano (1973, Odeon) e sua obra-prima, Cuban Soul (1976, Polydor). Os dois maiores sucessos do cantor, compositor e multinstrumentista (atividades que desempenha com a mesma desenvoltura) dizem presente: as baladas Coleção ("Sei que você gosta de brincar de amores/ Mas oh, comigo não!"), com sua construção harmônica das mais impressionantes e vocais celestiais, e A Lua e Eu, que está impressa nas mentes de todos que viveram os good times, das noites frias embaladas por radinhos de pilha. Quem chega agora à obra de Cassiano irá se surpreender nesta coletânea com canções como Salve Essa Flor e Ana, gemas lapidadas que tiram da lama essa tão instituição tão banalizada que é a balada soul. São músicas imortais, tanto quanto a própria Primavera, com que Cassiano ajudou Tim Maia a começar sua carreira.

As músicas lentas são maioria nessa coletânea, mas não faltam bons balanços funk, como De Bar em Bar (que consegue ter uma estrutura intrincada sem perder o embalo) e Saia Dessa Fossa, que encerra o disco fazendo um convite impossível de se resistir. Interessante em Coleção é conferir faixas do Imagem, o primeiro e raro disco de Cassiano, em que ele ainda tinha um padrão sonoro Motown anos 60, com uns vocais femininos meio Supremes e batida soul mais dançante. Mesmo assim, nas faixas É Isso Aí e , percebe-se claramente a evolução harmônica que ele imprimia ao gênero (simultaneamente ao que faria Marvin Gaye com o disco What’s Going On). As surpresas se repetem a cada faixa. Melissa, com violão e uma orquestra ricamente arranjada, é uma das mais belas músicas que um pai fez para uma filha. Hoje é Natal, com seu primor de arranjo, harmonia e vocais, absolve todos os cantores brasileiros do crime dos discos natalinos. Uma Lágrima revela, na entonação, a infiltração bossa nova no trabalho do soulman. E Casa de Pedra traz psicodelia num alto nível de arrojo, mas sem cair na chatice dos progressivos. E pensar que isso é só uma parte da obra do paraibano de Campina Grande... De qualquer forma, o bastante para matar de vergonha certos cantores que confundem firula sem substância com soul. Nesse departamento, Cassiano é o rei. (Silvio Essinger)
Faixas
Ouvir todas em sequência
1 Coleção Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
2 De bar em bar Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
3 Melissa Ouvir
(Cassiano)
4 É isso aí Ouvir
(Cassiano)
5 Hoje é natal Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
6 Salve essa flor Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
7 Não fique triste Ouvir
(Cassiano)
8 Cedo ou tarde Ouvir
(Suzana, Cassiano)
10 Ouvir
(Cassiano)
11 Uma lágrima Ouvir
(Cassiano)
12 A casa de pedra Ouvir
(Cassiano)
13 A lua e eu Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
14 Saia dessa fossa Ouvir
(Paulo Zdanowski, Cassiano)
 
COLEÇÃO
 
 
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