Poptical

Ed Motta (2003)

2003
Crítica

Cotação:

A saída de Ed Motta da multinacional Universal em direção à nacional - e supostamente mais íntegra - Trama sinalizou não apenas uma mera manobra mercadológica. Tanto que Poptical, disco produzido por Ed para estrear no novo selo, é na verdade a inauguração de uma nova fase na carreira do rotundo cantor. E nada melhor que começar uma fase nova em uma casa nova. Depois da viagem instrumental/experimental de Dwitza (2002), Ed recua, sem saudosismo, à sintese pop-jazzistica-black que cristalizara em Manual Prático Para Bailes, Festas e Afins (1997). Mas recua mantendo em mente as possibilidades exploradas em Dwitza. É como se, tendo contemplado todo um universo polvilhado de referências e influências no disco anterior - o jazz afrocêntrico, a canção popular norte-americana, o samba-jazz, e até o rock - Ed voltasse os olhos para seu "velho ofício" com uma sabedoria renovada, uma sofisticação ainda maior. Poptical é portanto o Ed de Colombina e Falso Milagre do Amor de volta. Mas é uma volta mais malandra, e nem por isso menos cosmopolita.

Cosmopolita e gregário pois Poptical vem recheado de parcerias e participações. Algumas das uniões acabam (re)despertando em Ed um pouco do que a trip de Dwitza tinha ocultado; o dom para o suingue fácil, a fusão de várias referências sonoras numa única e coesa melodia pop. É o caso da parceria com o onipresente Seu Jorge, em Tem Espaço na Van, ou na contribuição de Nelson Motta em Minha Casa, Minha Cama, Minha Mesa. Cada qual em seu campo - a primeira um balançado funk, a segunda um r'n'b mais lento, tingido de groove de samba-jazz - essas músicas exemplificam o que Ed tem de melhor como compositor pop. Sem pretensões, sem forçar a barra. Já a união com os "artistas reunidos" Jair Oliveira (Pra Se Lembrar) e Daniel Carlomagno (Que Bom Voltar) resulta menos espontânea, carregada de um falso suingue quase caricatural; talvez seja excesso de cerebralidade, vontade de empacotar mais referências e pegadinhas estilísticas do que as canções comportariam. Quando quer, Ed pode soar sofisticado sem perder o que há de espontâneo em si. A prova são as belas The Rose That Came to Bloom e O Fox do Detetive, que, mesmo encharcadas de flair hollywoodiano, exalam também naturalidade. Ou nas pequenas incursões mais jazzisticas, que surgem aqui e ali (Quem Pode Surpreender?, Rainbow's End). Sente-se que Ed Motta d.D. (ou seja, depois de Dwitza) já é outro. Mais seguro, sabendo que pode atingir a tão sonhada sofisticação sem alienar os meros mortais que curtem suas composições no rádio e nas pistas. Resta apenas dosar as quase incontroláveis facetas de sua inquieta musicalidade.(Marco Antonio Barbosa)
Faixas
Ouvir todas em sequência
1 Minha casa, minha cama, minha mesa Ouvir
(Nelson Motta)
2 Tem espaço na van Ouvir
(Seu Jorge)
3 Eu avisei Ouvir
(Adriana Calcanhotto)
4 The rose that came to bloom Ouvir
(Jean-paul )
5 Que bom voltar Ouvir
(Daniel Carlomagno)
6 Coincidência Ouvir
(Ivan Carvalho)
7 Rainbow's end Ouvir
(Ronaldo Bastos)
8 Pra se lembrar Ouvir
(Jair Oliveira)
9 My rules Ouvir
(Fabio Luiz)
10 Fox do detetive Ouvir
(Chico Amaral)
11 Gifts and sorrows Ouvir
(Blake Amos)
12 Quem pode se surpreender? Ouvir
(Zélia Duncan)
 
Poptical
 
 
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