AMANHÃ É TARDE

Fellini (2002)

2002
Midsummer Madness
Crítica

Cotação:

Já nos primeiros acordes sincopados do violão de Thomas Pappon, em Polichinelo, percebe-se: o Fellini ainda é o mesmo. O mesmo dos anos 80, de discos muito comentados e infelizmente pouco ouvidos - que atualizaram a estética emepebística, filtrada por um olhar peculiarmente pop. Não chega a ser surpresa, visto que, ao menos por fora, o disco é todo retrô. Da capa totalmente anos 60 à brincadeira do título (condizente com outros da banda), o deja vù é o que se espera. Mas não é bem flashback que se sente, ao se ouvir a voz de Cadão Volpato, as melodias sinuosas, os característicos backings de Thomas. É mais uma sensação de conforto, de reencontrar um som amigo que há muito não ouvíamos. Isso, claro, para os poucos que tiveram chance de escutar o grupo em sua primeira encarnação. Mas esses poucos acabam por notar, aos poucos que... o Fellini não é mais o mesmo! O clima lo-fi está lá, os sambinhas esquisitos estão lá, mas a dupla não se limita ao papel de souvenir cult. Talvez por soarem, agora, com maior propriedade, após sucessivas ondas de experimentos (Picassos Falsos, manguebeat, toda a nova MPB que flerta com a linguagem pop) que consolidaram a ponte que eles tentaram firmar antes. Ou pela maior variação rítmica, pelos arranjos mais cheios, inéditos nos discos anteriores. O charme de clássicos perdidos como 3 Lugares Diferentes pode ser irrecuperável, mas Thomas & Cadão passaram no teste do tempo.

E para quem nunca ouviu falar no grupo antes? Como fica? Bom, o Fellini é uma dupla de roqueiros fissurados nas raizes musicais de todos nós brasileiros, e que, bem a seu modo, dá sua interpretação pessoal dessa misturada toda. As batidas do violão se transmutam em sambinhas descarados, transbordando de ironia (Besouro, Jardim Secreto). Ou em levadas quase folk (Amanhã É Tarde, Longe). Ou em pura (e doce) esquisitice, tão típica do Fellini. É só ouvir o fake-samba-jazz - literal, já que evoca a clássica Take Five de Dave Brubeck - de Gravado no Rio. E prestar atenção aos momentos de musicalidade simples mas rica, surpreendente - como na melodia levada no teclado de As Peles, ou nas marotas Retrato, esta com um clima muito anos 60, e Canção, valorizada por sampleagens espertas. E também ao som desconstruído, esparso de Ventre Livre, com letra falada e violão jorgebeniano Uma beleza torta, desconcertante, única. (Marco Antonio Barbosa)
Faixas
Ouvir todas em sequência
1 Polichinelo Ouvir
(Pappon, Volpato)
2 As peles Ouvir
(Pappon, Volpato)
3 Amanhã é tarde Ouvir
(Pappon, Volpato)
4 Gravado no Rio Ouvir
(Pappon, Volpato)
5 Greve Ouvir
(Pappon, Volpato)
6 Ventre livre Ouvir
(Pappon, Volpato)
7 O quarto Ouvir
(Pappon, Volpato)
8 Besouro Ouvir
(Pappon, Volpato)
9 Retrato Ouvir
(Pappon, Volpato)
10 Jardim secreto Ouvir
(Pappon, Volpato)
11 Contas Ouvir
(Pappon, Volpato)
12 Longe Ouvir
(Pappon, Volpato)
13 Canção Ouvir
(Pappon, Volpato)
 
AMANHÃ É TARDE
 
 
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