NOVA CARA

AfroReggae (2001)

2001
Crítica

Cotação:

"Vinte e nove de agosto, 1993, 21 pessoas assassinadas pelo ódio e pela violência de policiais vingadores." Secamente, a história começa a ser contada em Som de V.G., faixa que abre Nova Cara, o disco de estréia da banda AfroReggae, formada na favela carioca de Vigário Geral. Eu Tô Bolado faz avançar a narrativa: moradores inocentes morreram fuzilados pela polícia "porque no dia anterior traficantes mataram quatro policiais". A tragédia que despertou o Brasil para a realidade cruel que imperava naquela comunidade (trazendo à mente do país cenas ainda frescas do massacre no presídio do Carandiru) também a fez sair em busca de saídas para a juventude encurralada entre a pobreza, o crime e a arbitrariedade da polícia. Assim, foi fundado em 93 o Grupo Cultural Afro Reggae, uma tentativa de, através do desenvolvimento de atividades culturais, dar novas perspectivas de vida aos jovens da comunidade. De suas oficinas musicais saiu esta banda, que apimentou com suas percussões o Assim Falava Zaratustra da abertura do Rock In Rio, na sexta-feira passada, e agora chega ao primeiro CD, com o apoio (e direção artística) de Caetano Veloso.

São várias as armas que ela usa em Nova Cara na missão de recontar sua história e torcer para que ela não se repita: samba, funk, reggae, axé, rap, a adaptação do miami bass que ficou conhecido como funk carioca, punk hardcore... uma espécie de resumo das miscigenações musicais promovidas nos anos 90 por artistas como Planet Hemp, O Rappa, Fernanda Abreu, Pedro Luís e a Parede, Farofa Carioca, Nocaute, Cidade Negra (todos não por acaso cariocas) e o pernambucano Nação Zumbi. A produção de Dudu Marote tenta encapsular tanta diversidade num produto pop, mas deixa a banda livre para passear por vários estilos às vezes numa só faixa.

Às vezes, o resultado lembra uma ou outra dos nomes citados acima. Iguais Sobrepondo Iguais (dos contundentes versos "sustentados e pagos pela população/ que inocente paga/ pela própria execução") tem cara de Planet Hemp, com intervenção do característico pandeiro característico de Marcos Suzano. Já Mesmo Assim é O Rappa com flauta. O que importa, porém, é que as letras dão seu recado e as percussões falam alto, com algumas bem vindas programações eletrônicas, como é o caso de Poesia Orgânica, em que o drum'n'bass come solto. Alguns espaços para respirar no meio do batidão indignado são abertos no tocante reggae Me Espere ("sete anos é o tempo que terei para ficar longe de tudo/ enjaulado e arquivado nesse submundo"), no descontraído funk Pegajoso e na balada romântica Meus Telefonemas (que tem parceria e vocais de Caetano). Vale aí o velho clichê: o AfroReggae endurece, mas não perde a ternura.(Silvio Essinger)
 
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