UMA GEOGRAFIA POPULAR

Marquinhos de Oswaldo Cruz (2000)

2000
Crítica

Cotação:

Defensor da tradição secular do samba dos subúrbios cariocas, Marquinhos de Oswaldo Cruz é antigo freqüentador de rodas de samba do Rio de Janeiro. Sua relação com o bairro que incorporou ao nome artístico é forte a ponto de o disco lhe ser quase todo dedicado (e no entanto a última faixa, Poderio de Oswaldo Cruz, vem erradamente creditada a ele: os autores são Marquinhos Diniz, Barbeirinho e Maneco). Como compositor Marquinhos é sem dúvida uma das boas promessas do gênero, como já pôde constatar Beth Carvalho, que gravou Geografia Popular (a música) em seu disco Pérolas do Pagode. A faixa-título é sem dúvida o carro-chefe do disco. Trata-se de um partido-alto que versa sobre as estações de trem que passam pelos subúrbios do Rio, de Deodoro à Central do Brasil, onde o coro vai atacando com o nome de cada uma das paradas. O samba Décima Sexta Estação também remete ao ambiente do samba, do trem, e de Oswaldo Cruz (a 16ª estação a partir da Central), onde, segundo a letra, "o samba corre em nossas veias". E corre bem.

Abrindo o disco, Luz de Verão é uma dolente parceria póstuma com Candeia, feita 25 depois da morte do sambista, a partir de uma gravação inédita garimpada dos arquivos de Cristina Buarque. A letra de Marquinhos, escrita logo depois do enterro de Alberto Lonato (morto em janeiro de 98), integrante da Velha Guarda da Portela, é uma bela e pungente homenagem ("não, o surdo não disse fim/ com a marcação/ sambas são pés que passam/ fecundando o chão/ chamas da profissão"). Mas o repertório não é composto exclusivamente por músicas de Marquinhos. Há uma seleção e tanto de sambas pouco conhecidos fora da rodas, como Minha Querida, Homenagem à Velha Guarda, as complementares Enquanto a Cidade Dorme e Manhã Brasileira e Meu Bairro, uma verdadeira preciosidade de Casquinha, felizmente tirada do baú. Com esmerada produção musical de Paulão 7 Cordas, a parte instrumental - totalmente acústica - é primorosa. O único senão do disco fica por conta dos dotes vocais de Marquinhos. Bom compositor, ótimo letrista, enquanto intérprete fica muito aquém do esperado, apresentando sérios problemas de afinação em praticamente todas as faixas. No calor da roda de samba passa. Mas no disco, a precisão do estúdio é mortal. Fica a torcida para que ofereça todo seu talento de sambista a intérpretes de melhor calibre.
(Nana Vaz de Castro)
Faixas
Ouvir todas em sequência
1 Luz de verão Ouvir
(Candeia, Marquinhos de Oswaldo Cruz)
2 Décima sexta estação Ouvir
(Marquinhos de Oswaldo Cruz)
3 O que os olhos não podem ver Ouvir
(Carlos Bezerra, Marquinhos de Oswaldo Cruz)
4 Homenagem à velha guarda Ouvir
(Monarco)
5 Minha querida Ouvir
(Manacéa)
7 Enquanto a cidade dorme Ouvir
(Jair do Cavaquinho, Nelson Cavaquinho)
8 Manhã brasileira Ouvir
(Manacéa)
9 Meu bairro Ouvir
(Casquinha)
12 Maria de todas as graças Ouvir
(João de Aquino, Marquinhos de Oswaldo Cruz)
13 Rapaz perfeito Ouvir
(Duarte, Marquinhos de Oswaldo Cruz)
14 Olha a saia dela Ouvir
(domínio público)
Muito embora abandonado (Mijinha)
Limoeiro limão (Domínio Público)

15 Poderio de Oswaldo Cruz Ouvir
(Maneco, Marquinhos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho)
Tem Zoeira (Catoni e Jabolô)


 
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